Chá das Cinco: Abrasileirando a gramática inglesa

Londres oferece inúmeras oportunidades de complementar o orçamento. Algumas delas pode até ser um quebra galho para uns, mas para outros é trabalho em tempo integral.

Eu acho que dos bicos e trabalhos paralelos que fiz no início quando eu cheguei em Londres o mais sem graça, aquele mais chato, mais entediante mesmo foi de trabalhar de garçon em eventos de gente rica.

Você olha aquele povo todo, rindo com aqueles dentes amarelados de tanto chá e cabelos despenteados e pensa: Deus pai, o que eu estou fazendo aqui nesta terra? Você fica lá, em pé por horas e tentando ser simpático, sempre perguntando as duas únicas coisas que os clientes querem ouvir:

-Tea?

-Coffee?

Pode parecer o trabalho mais fácil do mundo, mas mentalmente é um sepultamento do seu cérebro. Antes mesmo dos primeiros clientes chegarem eu já estava cansado com os preparativos de antes que incluia aprontar copos e garfos.

Dúzias. Caixas e mais caixas.

É igual uma prisão. Eles colocam todos os funcionários sentados em um canto da cozinha, deixam lá um supervisor – geralmente um polonês que começou alí cuidando das caixas de copos e um dia foi promovido a ‘superviser’. E dar um brilho em copo em Londres se chama ‘Polir’.

Até vir para Londres eu nunca tinha ouvido o termo ‘polir copo’.

Eu já tinha ouvido falar de polir sapato, copo não. Mas tem tanta coisa que eu nunca havia ouvido falar que a gente descobre nesta cidade …. A primeira coisa é como conjugar verbo em inglês de acordo com a conveniência da gramática portuguesa. O exemplo clássico disso é aquela coisa de ‘bookar’ (agendar).

Gente, a palavra book não se conjuga!.

Mas vira e mexe eu escuto até gente bem instruída e que sabe falar inglês razoavelmente bem sair com essa:

-Vou bookar a minha passagem para o Brasil.

-Vou bookar uma mesa no restaurante para hoje a noite.

Vai bookar o cacete porque isso não existe!.

Quando a palavra permanece igual ao original, eu acho que não fal mal algum usar, desde que com moderação. E nem é preciso sair do Brasil para ter a oportunidade de usar palavras inglesas como lobby,  design, rock, script, trailer, performance, playground, folder, show, container e feedback, entre centenas de outras. Mas escutar alguém que nem está lá muito ocupado falar ao telefone:

– ‘Hoje não vai dar porque estou meio busy fazendo um cleaner no meu flatzinho’  dói nos tímpanos.

Onde essas pessoas aprenderam a falar português  ou inglês?
No Paraguai, por acaso?