Chá das Cinco: Quem quer brincar de médico?

A primeira vez que eu fui no GP*, o posto de saúde dos ingleses, nem era nada sério. Eu estava com uma tosse e uma gripe que nunca passavam. Depois de umas duas semanas assim eu disse: vou no médico. Vai que isso é algum tipo de tuberculose rara?
Eu não saí do Brasil, evitando morrer de bala perdida, para chegar aqui e morrer com uma tosse.

Aí eu cheguei lá, sentei e fiquei esperando a minha vez. Depois de uns 45 minutos – o que achei até rápido – a recepcionista disse que eu podia entrar. O consultório médico era super pequeno, mesmo assim o médico ficou onde ele estava e pediu para eu sentar na cadeira em frente a mesa dele, mas não perto.

Ele fez umas duas ou 3 perguntas, sequer pediu para ver a minha garganta ou sequer tocou em mim … e receitou Paracetamol. Olha, sem querer ser mal agradecido… Mas não fui ao médico para me receitarem Paracetamol. Paracetamol eu compro até naquelas lojas de £1 sem precisar nem de receita!. Eu achei que tinha acontecido apenas comigo ou, de repente, o médico não tinha muita experiência tratando pacientes.

Uns dois anos mais tarde eu comecei a sentir umas dores no meu ombro e depois de umas duas noites tendo problemas para dormir direito eu disse: sabe de uma coisa? Hora de gastar o dinheiro dos impostos que eu pago e usar o serviço público desta cidade.

GP* aí vou eu!.

Eu fui mais para desencargo de consciência mesmo, para falar a verdade, porque no fundo, lá no fundo mesmo eu já tinha ideia do que era o problema. Eu sempre uso bolsa enorme porque eu tenho que carregar um monte de material de trabalho. Textos, livros, gravador portátil, carregador de celular, HD portátil, iPad, chocolate, folheto, calendário, caneta…..

Mais uma vez o médico indiano olhou para mim, sequer pegou no ombro que eu estava reclamando da dor, parou para escrever uns rabiscos e me deu uma receita para eu ir comprar um remédio.

Eu segurei a receita na minha mão, e pensei: mas este médico é bom mesmo! Nem me examinou direito e já tem um diagnóstico para mim.  O deslumbramento tupiniquim até me fez pensar que na Inglaterra é diferente, que os consultórios médicos talvez tivessem um sensor na porta que já fazia um Raio-X antes mesmo antes do paciente dizer a que veio.

Quando cheguei na farmácia Boots, eu fui logo para aquela área da farmácia achando que iria me dar um daqueles sedativos super poderosos que só vendem com receita médica. Quase remédio controlado, o que eu acho super na moda. Nada aproxima mais um ser humano comum de uma celebridade do que remédios de tarja preta. Mas a mulher olhou para mim e com uma voz monótona, disse:

-“Não,  este medicamente pode ser comprado diretamente das prateleiras mesmo.”

Fui lá pegar na ala que ela apontou e adivinhem? Paracetamol novamente, mudou só o fabricante!.  Eu fiquei em estado de choque. Como pode? Estes médicos só sabem receitar paracetamol? Mas sou insistente. Daí em 2011 lá estava eu de volta ao GP.

Antes de vocês começarem a pensar que eu sou hipocondríaco vou logo adiantando que 3 idas ao GP em mais de 10 anos nem é lá muito ruim.

Dessa vez eu estava sentindo uma dorzinha ao fazer xixi.  Eu deveria ter notado que algo estava errado quando o meu xixi estava meio cor de Fanta sabor laranja. Mas Londres, sabe como é… a gente corre tanto, mas tanto, que as vezes esquece até de cuidar da saúde e da urina. A primeira pergunta que o médico fez para mim foi:

-Quantos litros de água você bebe por dia?

-Litros?

-Sim, água normal…..

-Mas eu não sinto sede neste lugar que está sempre frio, Dr!.

-Pois o seu problema é infecção urinária causada por desidratação devido a falta de água no seu organismo.

-Desidratado, eu?

-Sim. Vá para casa e tome oito copos de água, no mínimo, por dia. Se não surtir nenhum efeito em quatro semanas volte que reavaliamos o seu caso. Boa sorte.

Eu, que antes reclamava quando médico na Inglaterra só receitava Paracetamol, agora tinha baixado o nível mais ainda: perdi um dia de trabalho para ir ao posto de saúde e ser receitado oito copos de água!

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GP é a sigla para “General Practitioner” o nosso clínico geral no Brasil. Todos os residentes no Reino Unido tem acesso aos cuidados primários gratuitamente.