Chá das Cinco: Hollywood é mais longe

Ser figurante em Londres é uma forma de ganhar um trocado extra sem ter que pensar muito. Geralmente você entra mudo e sai calado da cena, apenas aquela pessoa passando ao fundo, apenas para tornar o filme ou novela mais real. Mas é isso. Não pense que junto com o cachê vai vir o telefone do seu ator preferido ou que vocês irão virar amigos depois do trabalho. Não chega a tanto.

Dreceba no seu email

ebook grátis

17 dicas indispensáveis sobre londres

Super Dicas Valiosas para quem AMA a Terra da Rainha!

A minha primeira figuração no cinema foi para um filme chamado ’28 weeks later’.

Sabe aqueles filmes sobre vírus, contaminação em massa, panico na sociedade? Pois foi assim que eu estreei no cinema mundial.

Cheguei no set de filmagens, perto de London Bridge, centro de Londres, achando que eu era Brad Pitt ou George Cloney. Mas daí chega um assistente de diretor ou sei lá a função daquele homem azedo e começa a gritar para os figurantes:

-Ei, você de camisa azul… você vai ser o garoto de camisa azul carregando um monte de livros.

Ele olhou para a moça que estava do meu lado e foi logo dizendo: você vai ser a mulher com duas sacolas de supermercado.

Quando ele chegou em mim, depois de dizer o que cada um seria por uns 10 minutos, ele apenas me olhou rapidamente de canto de olho e disse:

-Você vai ser um trabalhador normal. Yes, an average workman!. Elenco decidido!.

E em 2006 eu lá sabia o que era um ‘average workman’? O que afinal seria um trabalhador normal? Um carteiro? Um vendedor de loja? Um taxista?

Nem deu tempo de descobrir porque ao longo do dia o meu papel foi mudando, mudando… coisa bem comum de quem é figurante e talvez nem apareça nos créditos. Sabe que papel acabou sobrando para mim? Fiquei sendo um dos zumbis, uma daquelas pessoas que ficaram enjauladas para uma quarentena.

Poxa vida! Com tantos papéis em um filme eu tinha logo que terminar com um destes trancado em uma cela? Quem assistiu ao filme vai lembrar.

Depois disso eu já fiz outros filmes.

Certa vez me ligaram convidando para um filme que era super segredo, eu teria que dizer sim ou não sem sequer saber no que eu estava me metendo. Parece até aquela sua amiga pilantra que começa a contar uma história que você não pode contar para ninguém e quando chega a melhor parte ela diz que não pode revelar os detalhes mais sórdidos.

Mas figurante não pode escolher muito e se você não quer, tem quem quer.

Essa é uma das diferenças entre quem é ator mesmo e quem está fazendo ponta.

Os atores bons tem agentes, que na verdade são pessoas que ficam procurando trabalho para eles em troca de uma comissão que varia de 15 a 20%.

São os agentes que lidam com os convites para filmes, para premieres, para fazer comerciais, para dar entrevistas e etc. Quem não tem onde cair morto e só faz ponta nem agente tem porque agentes não ganham salário fixo, por isso eles só representam quem eles acham que vai dar lucro. Daí que está o dilema. Quem não tem agente quase não consegue um trabalho que valha a pena. E quem não consegue trabalhos que valham a pena dificilmente consegue um agente para dar uma mão.

Mas aceitei o convite assim mesmo, tinha que pagar as contas. Aluguel, Oyster… Londres é cara.

Uma semana antes da gravação eu fui fazer o ensaio e a prova de figurino e só aí eu descobri que eu estaria participando do filme o Príncipe da Pérsia, com Jake Ghilenhall.

Falando assim parece uma grande coisa, eu sei.

E eu achei também que era porque este ator estava em alta por causa do filme Brokeback Mountain, indicado e vencedor do Oscar.

Num momento desses a gente para e pensa que agora as portas de Hollywood vão todas se abrir, que vai rolar convite para a festa do Oscar, que o diretor do filme vai gostar do trabalho da gente e convidar para o próximo. Que depois vai surgir um convite para fazer uma série na TV, tipo assim Friends ou Grays Anatomy que dura 10 anos anos e o dinheiro, enfim aleluia, começará de fato a entrar no caixa.

Para se ter uma ideia da complexidade da coisa, só a maquiagem e os apliques de cabelo que eles colocaram em mim demoravam quase duas horas para ficarem prontos.

E as roupas, uma espécie de armadura medieval, eram tão pesadas que eu chegava em casa com dor nas pernas e nos ombros. Parecia que eu estava carregando o mundo nas costas. Tudo pela arte. E um cachê de £140.

Daí chego eu lá para gravar e na hora do ensaio geral eu descobri o meu papel: um cadáver.

Isso mesmo, sem brincadeira: no filme eu já entro morto em uma cena do campo de concentração. Eu não sei o que foi pior, se foi essa coisa de nem sequer ter fala ou interagir com a cena ou se foi o fato de gravar ao lado de um ator famoso e nem poder olhar para ele. Eu ficava com a pálpebra coçando de vontade de abrir os olhos e ver ele de perto porque a gente sempre tem essa coisa boba de achar que se é de Hollywood é melhor do que os outros mortais.

Mesmo assim eu liguei para casa, no Brasil, para comemorar porque, morto ou vivo era um longa metragem feito em Londres com uma equipe de Hollywood.

Como toda mãe, a minha tentou dar uma força, com o seu otimismo quase sem fim:

-Parabéns meu filho. O importante é o primeiro passo e as pessoas tem que começar de baixo para dar valor ao sucesso.

Verdade, mãe . Mais raso do que isso, nem teria como.

Agências de figuração em Londres:

www.maddogcasting.com

www.2020casting.com

www.rayknight.co.uk