Chá das Cinco: Cobaia por um dia

Quando ouço alguém dizer que em Londres a vida é difícil e você tem que ‘dar o sangue’ para sobreviver na capital inglesa, uma das cidades mais caras do mundo, eu nem me assusto. É que no meu caso, eu não precisei dar o meu sangue. Eu vendi.

Em 2005, após ver diversos anúncios em revistas do Reino Unido recrutando pessoas jovens e saudáveis para ‘ajudar no progresso da medicina e encontrar a cura para doenças que afetam milhões de pessoas’, eu decidi dar uma olhada nisso de perto.

A forma como os laboratórios de pesquisa divulgam as vagas para testes é bem altruísta, sempre destacando que a sua contribuição paga é importante para ajudar a indústria farmacêutica a colocar no mercado remédios seguramente testados. Em outras palavras: eles vendem o conceito de que você não está sendo cobaia e sim um mártir da medicina.

É que antes de chegar as prateleiras de uma farmácia, todo medicamento é testado primeiro em animais e depois em seres humanos, o que faz sentido porque ninguém quer tomar um remédio para um problema e contrair outro.

Boa parte das pessoas que decidem encarar o desafio de ficar de sete a 21 dias internado em uma clínica levando picada de agulhas e fazendo teste de sangue diários – por cachês que podem ultrapassar £4,000 pelo seu tempo – adotam a filosofia de que a experiência é uma espécie de férias pagas, uma momento para ler, refletir e fazer a sua parte pela humanidade. Eu fui mesmo pela grana porque, em 2005, a possibilidade de receber £2,970 por duas semanas testando um remédio para reumatismo não dava para deixar passar.

Achei a revista do metrô, a caminho da escola. Arranquei a página com o telefone e liguei para conseguir mais informações.

O primeiro ‘teste’ é ali mesmo durante a ligação. Eles perguntam o básico, mas é naquele primeiro contato que eles decidem se você vai ser convidado para ir a clínica fazer exames e se tornar cobaia oficial – ou se é melhor você continuar trabalhando no Starbucks por £7 a hora.

Uma das perguntas é se você foi voluntário para outro laboratório nas últimas semanas porque, acredite ou não, existem pessoas que vivem apenas de ser cobaias.

Não pode ter medo de agulha. Ou sangue. Os riscos são pequenos porque você já está em um hospital, ou seja, quem tiver um ‘piripaque’ já é socorrido lá mesmo. E tem que ter muita paciência.

Quando cheguei na clínica para os exames (quatro horas e vários tubos para iniciar o dia), vi que as outras pessoas participando da experiência tinham um perfil parecido: estudantes entre 20 e 35 anos de idade, cara de aventureiros, pele boa e motivos parecidos: a maioria ou estava tentando ganhar uma grana extra para viajar pela Europa ou tinha acabado de voltar de viagem e estavam sem dinheiro após meses batendo perna pelo mundo a fora, sem trabalhar.

Achei que seria fácil. Saí de lá com a promessa de ser chamado em breve, o que de fato aconteceu. E no meu primeiro dia como cobaia eu pensei: estas vão ser as libras mais fáceis que eu já ganhei nesta terra de Elizabeth II.

Puro engano.

Conforme as horas vão passando, não tem TV ou livro que ajude.

Só o fato de ficar internado em um hospital de verdade sem estar doente já cria uma depressão e visitantes são permitidos apenas uma vez por semana.

Eu ficava olhando aquela agulha espetada no meu braço com o remédio sendo injetado em gotas bem pequenas, para ser possível monitorar qualquer eventual reação alérgica, e cada minuto parecia uma eternidade.

Como em 2005 eu não tinha laptop e meu celular era de crédito (com bem poucos créditos, aliás), não dava sequer para ficar se comunicando com o mundo real aqui fora ou avisar que a gota 1.826.001.45 tinha acabado de passar pelo tubo e agora faltavam apenas 13 dias, 16 horas, 38 minutos e alguns milésimos de segundos para os testes acabarem e eu ir embora para casa. O fato de que, em 2005, Steve Jobs, da Apple, ainda estava há anos luz de inventar o iPad também não ajudou muito. O único recurso era uma sala de jogos e outra com cinco computadores para serem divididos entre uns 200 voluntários fazendo teste e lutando contra o tédio, assim como eu. Para evitar fila nos corredores, em frente a sala, havia uma lista de espera onde quem quisesse ler email tinha que deixar o nome e retornar mais tarde para usar o computador por meia hora. Para usar novamente, só colocando o nome no fim da lista e esperar outras horas.

O melhor é a equipe trabalhando. Médicos e enfermeiros capacitados que regularmente checam se você está bem e trazem algum outro remédio para ajudar a conter os efeitos colaterais da droga que você está testando. E é interessante dividir quarto com outras pessoas de tantos países diferentes, com tantas histórias e planos para Londres. E todo mundo acaba se falando porque não tem como fugir ou fazer outra coisa. Só sentar e esperar a vida passar. É como participar de um Big Brother, mas ao invés de câmeras, tem agulha.

O pior é a alimentação racionada, com porções bem pequenas. O motivo é que tudo que comemos interfere no sangue e, como cada cobaia tem o sangue monitorado a cada milésimo de segundo durante a sua internação, a última coisa que os médicos querem é que as suas taxas de colesterol, por exemplo, cheguem nas alturas.

No fim do primeiro dia, e depois de ter refletido sobre a vida, o que me trouxe para Londres e o que eu queria usufruir da cidade, cheguei a conclusão de que aquilo não era para mim. O mundo estava acontecendo lá fora e eu estava perdendo tudo isso em troca de uns trocados. Era tédio demais, inércia demais.

Após a janta – outra porção racionada que me fez detestar ainda mais ser cobaia – falei para a equipe médica que estaria abandonando o programa naquela noite.

Eles entenderam. Anualmente diversas pessoas começam testes como estes e desistem no meio do caminho por motivos pessoais ou de saúde. E já prevendo isso, os laboratórios de pesquisa sempre recrutam mais pessoas do que precisam. Fui alertado apenas para a cláusula do contrato que diz ‘só recebe dinheiro quem completa os testes até o final’. Essa é apenas uma das diversas cláusulas da papelada que as pessoas que topam ser cobaias tem que assinar; algumas delas alertam para os riscos, tem que deixar contato de um membro da família, não pode beber álcool ou fumar no período, etc. Dinheiro fácil, não existe.

Não ganhei nada. Só experiência. E a certeza de que eu estou em Londres para vivenciar o melhor da cidade. E isso, não inclui passar dias em uma cama de hospital por dinheiro nenhum do mundo.

Porém para para quem quiser arriscar, é gratuito para se inscrever e aqui vão alguns dos laboratórios sérios do ramo:

www.parexel.com

www.richmondpharmacology.com

www.quintiles.com

www.trials4us.co.uk