Marcio Delgado | Twitter: @marcio_delgado

Em tempos quando a informação se propaga na velocidade da luz e somos bombardeados a cada minuto por notícias que chegam através das mídias sociais como um insistente conta-gotas, tem coisas que a gente lê e tem que ler de novo para ter certeza do que estava escrito e que não é alucinação.

Na última quinta-feira (03/11), foi anunciado que a justiça decidiu que o governo britânico precisa ter a aprovação do Parlamento para desencadear o processo formal de saída do Reino Unido do bloco de países que forma a União Europeia.

Até aí tudo bem.

Seja qual fosse o resultado da consultação pública realizada em junho deste ano para decidir se o Reino Unido deveria continuar como membro da UE ou cair fora, sempre haveria um lado que não iria concordar com o resultado e dar uma esperneada. Acontece nas melhores famílias – ou melhor: países.

O que eu não esperava é que fosse ter brasileiro no meio.

O cabeleireiro carioca Deir dos Santos, que mora na terra da Rainha Elizabeth II há mais de 10 anos e tem cidadania britânica, foi uma das três pessoas que entraram com um recurso para jogar um balde de água fria nos planos da primeira ministra Theresa May (os outros dois  foram uma advogada e um milionário que tem uma empresa de desentupimento).

A minha surpresa não foi apenas pelo fato do trio representar a ideia que eu tenho de como ‘mau perdedores’ se comportam. Sim aquelas pessoas que aceitam as regras do jogo no início …. mas quando perdem querem revogar a partida de futebol.

O meu queixo caiu mesmo ao saber que, entre tesouras, tintas e apliques, o cabeleireiro brasileiro na verdade votou a favor da saída do Reino Unido do bloco que forma os países da União Europeia!. Eder se deu ao trabalho de ir as urnas para pedir o fechamento da ‘porteira’.

Sou a favor de que qualquer ser humano tem o direito de repensar e mudar de ideia.

Esse não foi o caso de Eder.

Segundo comunicado a imprensa lido pelo seu advogado, no dia da vitória, o cabeleireiro achou que ‘não era certo para o governo passar por cima do Parlamento e tentar tirar os meus direitos legais sem consultar o Parlamento em primeiro lugar’.

Eu não entendo como um brasileiro se acha no direito de votar a favor de fechar as portas e jogar a chave fora – provavelmente porque ele já encontra-se dentro da ‘festa’.

Será que eu sou o único que acha isso um ato egoísta e mesquinho?

Assim como Eder eu moro no Reino Unido há mais de 10 anos e, assim como ele eu também tenho dupla cidadania (Brasil/Inglaterra). Eu votei a favor de permanecer porque acredito que a união de forças pode trazer mais resultados do que o trabalho isolado.

Eu acho inclusive deselegante se posicionar contra as nossas raízes.

Não há nada errado em ser imigrante, independente do seu país de origem. E não há nada de errado em deixar que outras pessoas possam ter a chance de correr atrás de sonhos e oportunidades, trilhando o caminho que você também percorreu um dia.

Se o problema é super lotação, cabe a justiça organizar a fila, evitar a ilegalidade e vigiar o abuso do uso indevido dos benefícios públicos disponíveis no Reino Unido – e nenhum destes problemas é solucionado simplesmente tapando o sol com a peneira com um voto de exclusão.

Se o problema é a violência e a falta de emprego, cabe ao Estado investir em policiamento e o cumprimento das leis e criar viabilidade econômica para alavancar os negócios.

Raciocina comigo: ao invés de diminuir a mão de obra extra disponível no mercado não seria mais inteligente investir na criação de mais vagas? Nem é preciso ter um PhD em política ou economia para chegar a esta conclusão. Eu não tenho.

2016 foi o ano em que eu tive que tentar explicar para amigos e leitores de todas as partes do mundo que nó foi esse na política brasileira e como Dilma terminou sendo afastada da presidência do Brasil. Pediram para que eu explicasse, de forma fácil de entender, como funciona a política e a cabeça do brasileiro. Mas isso nem sempre é tarefa fácil.

Mas agora vai ser difícil explicar como o cabeleireiro Deir acha que a vontade de mais de milhões de pessoas precisa esperar pela benção do Parlamento.

Gostando ou não, a verdade é que 17.410.742 pessoas votaram a favor da saída … contra 16.141.242 que queriam a permanência – e apesar de não fazer parte do grupo que optou por colocar uma linha divisória entre os países, eu respeito a decisão da maioria que se fez presente no dia das eleições e seja o que Deus quiser.

Tentar explicar Deir é igual quando você arrisca dar uma aparada na franja, em casa mesmo, achando que vai ficar ótimo e ainda vai economizar uma grana. Daí o corte improvisado fica torto, você tenta cortar um pouco mais para consertar e termina piorando a situação e apenas com um toco de franja no topo da testa, igual a aba de um boné.

Tem como explicar isso no trabalho no dia seguinte? Não.

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Márcio Delgado é jornalista e reside em Londres desde 2004 onde é consultor em Comunicação Empresarial, Marketing e Conteúdo | Twitter e Instagram: @marcio_delgado