Under the skin

A semana de estreia de “Under the skin” em Londres foi marcada por uma série de conversas entre diretor, produtor e colaboradores em vários cinemas pela cidade. Fui a uma delas, no BFI, e constatei que o filme vai ser um microfenômeno, uma febrezinha, por aqui. Quem sabe também no Brasil?

Entre os direitos de filmagem comprados ao agente do escritor Michael Faber e a edição final foram 9 anos, em que não se mudaram muitos os peões e reis do jogo de xadrez. Tanto o diretor Jonathan Glazer como o produtor James Wilson estão desde o início na jogada. O livro de Faber é dedicado à sua mulher, que o incentivou a tirar da gaveta os manuscritos e abandonar a carreira de enfermeiro. Seus personagens têm um quê de assustadores, distantes e alienados passageiros na Terra, meio a exemplo dos de Patricia Highsmith. Bem, a essa altura vocês já devem saber que a morena tingida Scarlett Johansson faz o papel de um ET. Era melhor ir para o cinema sem saber disso, mas difícil hoje em dia alguém ver qualquer obra de arte às escuras.

Scarlett Johansson
Scarlett Johansson

Passado na Escócia, “Under the skin” se comporta como nascisista thriller atual, ou uma revisão escocesa para um “Taxi driver” grotesco das Highlands. É uma dedicatória ao sentido do olhar, o que já pode ser visto na cena de abertura. E porque a câmera/olho acompanha prioritariamente este alienígena, a tendência é simpatizar-se com ele/a, a despeito de seus robóticos instintos assassinos. Suas vítimas são uns zé-ninguéns, que se rendem à luxúriareconstruída por cima da pele.Rezai por eles, pecadores, azar o deles, agora e na hora da nossa morte, amém.

Embora tentando recuperar o naturalismo, Jonathan Glazer compôs com Scarlett uma donzela às avessas. Há até a cena em que o príncipe carrega a princesa no colo e por sobre a poça d’água, em direção ao castelo. Um idílio à ficção científica. Glazer diz, porém, que “o livro é uma chama de inspiração” e admite ter-se distanciado do original para a adaptação.

O olho/câmera, na verdade, são muitos, são plurais, como na cena em que Scarlett cai no meio da rua e é ajudada pelos transeuntes. Scarlett caiu de verdade e a cena foi gravada diversas vezes, por múltiplas câmeras, em locais diferentes, sem figurantes. São pessoas comuns. O mais interessante, revela o diretor, é que se uma pessoa vê a outra caindo, ela ajuda, mas se a pessoa já está estatelada no chão, ela passa batido. Well, Goodge Street, London…

O processo das filmagens durou 18 meses e Scarlett se envolveu entusiasmadamente. A julgar por este filme e “Ela”, talvez a atriz esteja se empenhando em se livrar de um estigma de sex symbol, mas só o tempo vai dizer se ela transcenderá Brigitte Bardot. Por enquanto a sua nudez ainda é castigada.

Conversei também com a menina, porque é mesmo uma menina, que compôs a trilha sonora. Disse-me que o processo começou depois de o filme ter sido girado e que houve um entendimento com o diretor. Glazer também é conhecido por seu trabalho como diretor de videoclipes, do Blur, Radiohead, Massive Attack e Nick Cave. Claro é que iria acertar na escolha de Mica Levi para o som de seu filme.

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Maysa Monção

Maysa Monção é uma crítica de filme e esperta em teatro. Ela deu aulas de literatura e análise de filmes na América Latina e na Europa. Foi pessoalmente convidada para o BFI London Film Festival e a Festa Internazionale di Cinema di Roma, entre outros festivais, para escrever críticas sobre novas produções. Exemplos de artistas a quem entrevistou são Peter Greenaway, Dustin Hoffman, Roman Coppola, Jeff Nichols, Kleber Mendonça Filho, Steve MacQueen, Sam Mendes, Tim Burton, Tom Hanks, Thomas Vinterberg, Rolling Stones, Stone Roses, Judi Dench, Sofia Coppola e mais. Também trabalhou no teatro com Antunes Filho e Gerald Thomas.