Chá das Cinco: Londres tem um preço para tudo

Quando decidi vir para Londres, há mais de 10 anos, não existia Facebook. Nem Twitter. Nem Youtube ou Instagram.  A internet acontecia por email ou Orkut.

Hoje está mais fácil conseguir informação para se ir a qualquer lugar do mundo.  Tem foto de tudo online, além de vários blogs e sites de gente dividindo experiências no exterior.
Como eu não tive acesso a nada disso, a minha viagem foi planejada com a ajuda de duas amigas, Telma & Wilma – e do Google. Pesquisando, perguntando, desafiando a barreira da língua antes mesmo de pisar na terra da Rainha.

E foi assim, perguntando, fuçando daqui e dali, que consegui arrumar escola, lugar para morar e dicas de onde comprar coisas baratas.

Mas há coisas que não planejamos quando estamos empacotando a vida para vir morar no exterior. Detalhes do dia-a-dia que, por serem tão comuns, não colocamos nos planos e esquecemos de levar em conta quanto tempo e trabalho vai consumir.

Às vezes, além do tempo e do trabalho, acrescenta-se aí um pouco de dinheiro também.

Quem se muda de um país para outro raramente coloca na lista de prioridades:

-Vou fazer registro no hospital em Londres assim que chegar, para o caso de uma emergência.
-Vou visitar o banco e abrir uma conta
-Vou tirar foto 3×4 nova

Não colocamos …  mas deveríamos.

Porém, como brasileiro deixa tudo para a última hora e é muito esquecido com as coisas práticas da vida no exterior, tem sempre alguém tirando proveito deste mau hábito

Na minha primeira moradia em Londres conheci o Júnior-pau-para-toda-obra. Eu chamava ele ‘pau para toda obra’ porque o que você precisasse ele sabia como conseguir. Por uma modesta taxa, claro. Toda informação dada tinha o seu preço.

O lema dele era assim:
-Buscar no aeroporto? Busco: £50.
-Abrir conta no banco? Abro: £100.
-Ajudar a comprar o Oyster? Claro que ajudo: O Oyster da semana custa uns £30 e eu cobro £20 pela viagem até a estação.
-Quarto para dividir com mais 12 pessoas? Claro, sempre cabe mais um e custa ‘apenas’ £50 por semana.
-Formulário para trabalhar em eventos de garçon? tenho: custa mais cinquentinha.

Isso mesmo: o rapaz vendia até trabalho.

As vagas mais populares (e caras) eram as de faxineiro em escola porque não precisava falar muito, apenas saber manejar uma flanela e o aspirador de pó. E aspirador de pó no início dos anos 2000 não era bonitinho igual os de hoje. Era um trambolho vermelho, com o desenho de carinha e boca chamado Henry.

Acabei comprando dele só a vaga em uma casa mesmo, dividindo com mais 4 pessoas no mesmo quarto, em duas beliches que balançavam igual a rede de balanço de tão velhas. Mas como o quarto era pequeno, a beliche batia na parede e voltava a ficar em pé antes de desmontar .

Nem de longe dividir quarto com os outros é um problema em Londres. Você conhece mais gente. Sua mente abre. Ronco alheio não tira mais o seu sono.

E no final tudo valia a pena porque, do lado de fora do quarto, a cada início de dia, tinha uma cidade inteira cheia de coisas a serem exploradas.

Quando se tem Londres aos seus pés, não tem beliche torta, nem chão duro, que estrague a aventura.