Chá das Cinco: Madrugando na passarela

Ao contrário do imagina boa parte das pessoas, moda é coisa séria e todo mundo acorda cedo.

-Fica em pé aqui. No cantinho. Mas não mexe muito não para evitar atrapalhar a foto dos outros que estão atrás. Obrigada.

Não que eu estivesse fazendo planos de ficar dançando ao lado da passarela, porque nem espaço tinha. Mas quando uma das organizadoras deu as instruções de onde eu poderia ficar para assistir o desfile e demarcou a área – e os movimentos – que eu podia fazer durante a apresentação, eu lembrei daqueles filmes de comédias onde as tias ricas solicitam aos sobrinhos pobres que estão de visita:

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-‘Não mexe em nada não menino, que é para não quebrar’.

Semana de moda em Londres é assim.

Milimetricamente ensaiada, mesmo para aqueles que tem credencial de imprensa e lutam arduamente por um lugarzinho com boa vista para a passarela. Aliás, pasmem os jornalistas que assim como eu investiram dinheiro e quatro anos em um diploma de comunicação social: quando o assunto é moda, carteira de imprensa é um acessório tão útil quanto um abridor de garrafa quebrado ou um abajur sem tomada. É que, com os convites sendo enviados para a casa de profissionais especializados e seletos convidados semanas antes da primeira modelo pisar na passarela, a menos que você seja Kate Moss ou a editora da Vogue, é bem provável que você vá ficar em pé para assistir os últimos lançamentos ou lá atrás – porque  sentar na primeira fila é privilégio para bem poucos.

Uma ideia equivocada que muitas pessoas tem a respeito de semanas de moda é que tudo é festa durante os desfiles e, depois que as luzes apagam, o champanhe continua rolando solto. Até tem champanhe sim. Mas moda é coisa séria, uma indústria que, apenas no Reino Unido, é avaliada em torno de £21 bilhões de libras e gera mais de um milhão de empregos diretos e indiretos, segundo dados do British Fashion Council, o que coloca o setor em nível similar ao competitivo mercado de bebidas e alimentos, por exemplo.

A diversidade cultural de Londres, a capital inglesa que recebe milhares de turistas e estudantes todos os anos, tem contribuído muito para a difusão da moda, fazendo com que estilo seja um assunto comum no dia-a-dia dos habitantes. A curiosidade do público em torno do tema é tão aguçada que, de acordo com pesquisa da empresa de consultoria Precise, a cobertura da última semana de moda de Londres, realizada durante seis dias em Setembro, ultrapassou o espaço ocupado na mídia pelo esporte.

Outro mito é que estilistas, designers e artistas trocam o dia pela noite e saem da cama ao meio dia de óculos escuros para iniciar mais um dia de trabalho. Não é bem assim. Quem esteve visitando ou trabalhando em uma das edições da London Fashion Week sabe que a moda acorda cedo. Durante cinco dias (outro mito aqui: chama-se semana de moda mas dura uma semana), cerca de 70 desfiles entram na passarela, alguns deles as 9 da manhã. O que para o relógio biológico de alguns pode soar como ‘madrugada’, na semana de moda é fato comum. Não que os profissionais do ramo sofram de insonia. Nada disso. É que com uma média de pedidos e negócios girando em torno de £100 milhões de libras (isso mesmo: mais de R$ 250 milhões de reais) em menos de uma semana, não é de estranhar que a caixa registradora tilinta a cada minuto que passa tirando até os mais dorminhocos da cama.

 É feio sair falando mal, eu sei.

Mas se tem algo que eu sempre sinto falta nos bastidores de desfile de moda em Londres é caloria, uns carboidratos para dar energia de ficar em pé e circulando de um desfile para o outro, isso sem contar as filas que se enfrenta. Até em Paris, onde as modelos parecem mais magras, altas e com pescoço gigante, de vez enquanto tem até croissant.

O mesmo não acontece na terra da rainha e, por horas a fio, o mais comum de se encontrar entre um desfile e outro são trufas de chocolate e garrafinhas de água mineral. Nunca entendi bem este dueto porque o primeiro não mata a fome e ainda provoca sede. E beber água em bastidores de semana de moda em Londres é a maior roubada porque os banheiros são sempre longe. Caminha-se até dizer basta. Mas, de repente isso é até estratégico: uma forma de obrigar modelos e convidados a queimar, de forma natural, todas as calorias adquiridas com as benditas trufas.

COISAS DE BASTIDORES:

-Nem todo desfile começa na hora marca no convite

-Nem todo modelo é bonito igual nas revistas

-Quem senta a partir da terceira fila não ganha brinde

-Não é todo desfile que tem convidados famosos na platéia

-Nem toda roupa que se vê na passarela é para vender

-O evento acontece em diferentes locais simultaneamente

-Alguns desfiles são transmitidos, ao vivo, pela internet

-Nem toda passarela é suspensa como um palco. Usar o chão está na moda.

-Sombrinhas são artigos disputados porque as filas na calçada podem durar horas.

-Há quatro semanas de moda por ano em Londres: duas masculinas e duas femininas