Chá das Cinco: Morando de graça em Londres

Uma outra coisa que eu aprendi aqui em Londres foi uma história de ‘dar um help’, o que basicamente significa ajudar por tempo indeterminado quem decide deixar o Brasil e trocar sol por neve – ou quem já está aqui e, por um motivo ou outro (perda de emprego, término de contrato de aluguel, fim de relacionamento, etc), de repente ficou no olho da rua.

Eu nunca curti muito essa expressão porque este negócio de dar um ‘help’, a menos que seja para a pessoa dormir um fim de semana na sua casa, eu acho que não funciona e coloca até amizades em risco. É igual emprestar dinheiro.

Eu já ajudei, já dei help sim. Já hospedei sem pedir nada em troca.

Mas hoje em dia não faço mais isso sem deixar bem claro por quanto tempo a pessoa pode ficar. Aprendi com os ingleses a ser direto, a falar, sem achar que estou ofendendo. Melhor ter tudo bem ‘preto no branco’ do que se arrepender depois.

Certa vez nós (eu e as duas meninas que moravam comigo) estávamos dando abrigo para uma conhecida que veio de São Paulo e quando chegou em Londres descobriu que a casa que ela tinha alugado pela internet era tudo um golpe. Alugaram para ela algo que não existia, ela caiu, pagou antecipadamente e quando chegou aqui ela ficou em choque quando descobriu que o endereço da moradia dela na verdade era o de uma Farmácia chamada Superdrug perto de Clapham – e ela achando que iria morar bem e perto do parque.

Ela ligou desesperada para a Bia, nos reunimos e ela foi lá para casa de mala e cuia.

Era para ser uns dias, dormindo na sala, e eu inocentemente pensei que uns dias queria dizer tipo: 4 ou 5 dias?. Será que desaprendi a contar tão rápido?

Pois a ‘visita’ ficou lá em casa semanas e mais semanas.

Achei uma super falta de bom senso. Ela nem procurava mais moradia porque tinha de tudo: casa, comida, contas pagas, água quentinha no chuveiro, aquecedor… encostou mesmo!

Depois de quase três meses (isso mesmo quase 12 semanas) morando de graça sem contribuir uma única semana com o aluguel – sim porque ela era visita, estava de help – essa mulher ainda saiu falando da gente por aí. Meses mais tarde eu soube que ela falou por aí que éramos miseráveis, que não tinha comida na casa, que ela não podia comer nada e era tudo na chave.

Para tudo!
Como é que é? a maltrapilha nunca comprou um biscoito cream cracker! Nunca passou o aspirador de pó nem na sala que ela dormia. Nunca colocou o lixo para fora. E ainda saiu falando mal?

Fiquei pensando o que ela estava esperando para sair tão decepcionada após morar 12 semanas gratuitamente em uma das cidades mais caras do mundo.
Será que ela pensou que teria café na cama diariamente durante toda a sua estadia?

Eu fiquei tão chateado que desde este dia eu prometi para mim mesmo nunca mais ficar dando “help” para ninguém. E quando vem alguém do Brasil de visita e tem que dormir uma noite lá em casa, já avisamos as regras, quando tempo podem ficar e nada de ficar fazendo corpo mole e encostando.

Minhas visitas são, simpaticamente, apresentadas a máquina de lavar louça e ao aspirador de pó já a partir do segundo dia. Assim elas se sentem mais em casa também.

E quem não se der bem com as tarefas domésticas que a minha residência tem, pode procurar outro hotel e pagar pela mordomia de acordo com as estrelas que couber no orçamento.

Eu nem fico chateado. Prefiro uma casa limpa.