Chego na academia com meu tempo contadinho: tenho 45 minutos para fazer o que der e voltar ao trabalho. É hora do almoço e ao ver um grupo de pessoas agitadas na área de cardio penso que deve ser porque todo mundo resolveu ficar em forma ao invés de comer. Não era. Uma mulher havia sofrido um acidente, no meio da academia, enquanto procurava por um ‘Pokemón Go’.

Nada contra quem tem tempo de sobra para ficar correndo atrás de bichinho virtual. Isso nem é novidade.

Quando eu era criança havia um joguinho chamado ‘Tamagushi’ que era um animal virtual que você tinha que ‘alimentar’ regularmente ou ele ‘morria’. Nunca tive um porque lá em casa somos três filhos, se comprasse para um teria que comprar para os outros dois – e os meus pais provavelmente decidiram que seria melhor investir este dinheiro em coisas mais úteis como arroz e feijão, por exemplo.

O ruim deste modismo é que não temos o mínimo controle sob a imbecilidade alheia.

Se eu já achava bem chato ficar recebendo aqueles convites no Facebook para jogar CandyCrush, imagina agora com este povo atrapalhando o meu horário na academia que pago mais do que uso?

Há quem pense que eu deveria ter me solidarizado com a mulher lá estendida no chão enquanto a ambulância chegava.

É que na Inglaterra essa tal de ‘Health & Safety’ (lei da saúde e segurança) faz um alarde por qualquer coisinha. A moça apenas tropeçou por não estar olhando por onde andava e caiu em cima de um equipamento. Mas claro, os funcionários da academia é que devem ter pedido para ela ficar lá, por medida de segurança. Neste caso para eles terem a segurança de que ela recebeu a devida ajuda e não processaria o estabelecimento comercial por ter sofrido um acidente. Como várias leis que existem, esta é bem usada para beneficiar mais as
empresas do que o resto da população.

Mesmo que um Pokemón não tivesse atrapalhado o meu dia eu ainda estaria bem pouco satisfeito com essa nova febre porque ela está afetando o meu bolso, ainda que indiretamente.

Recentemente em Hastings, cidade praiana que fica a pouco mais de 100 KM de Londres, um barco salva-vidas teve que entrar em ação no meio da noite porque três adolescentes caminharam mar adentro – em uma zona de risco, de roupa e tudo – em busca de … adivinhem? Isso mesmo: um Pokemón. Elas não pensaram nos riscos. Mas a família pensou.

Para quem ainda não ligou os pontos, equipes de resgate são pagas por cada um de nós que paga impostos neste país. Então quando vejo o meu dinheiro ser usado para salvar pessoas correndo atrás de Pokemón, eu não consigo achar nem uma gota de solidarismo em mim, não para quem coloca a vida em risco assim a toa.

A mulher acidentada na academia e as jovens resgatadas no mar passam bem.

A conta bancária dos criadores do tal Pokemón, também.

E agora quando vejo alguém usando o celular na esteira rolante da academia já saio até de perto, escolho outro exercício para fazer bem longe. Para ser sincero, se alguém cair por alta de atenção enquanto se diverte, vou fingir que nem vi porque não sou babá de caçadores virtuais.

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Márcio Delgado é jornalista e reside em Londres desde 2004 onde é consultor em Comunicação Empresarial, Marketing e Conteúdo | Twitter e Instagram: @marcio_delgado
“A opinião dos nossos colaboradores não refletem necessariamente na opinião do editor do elondres.com”

 

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