“Frank” com certeza é o menos norte-americano dos filmes selecionados para o Sundance London 2014. Patrocinado por instituições inglesas como o British Film Institute e a rede de cinemas Curzon, com cenário parcialmente inglês e irlandês, o longa do diretor Lenny Abrahamson justifica-se por ter sido selecionado para o maior festival independente norte-americano por incluir um parte um road movie ambientado no Texas. Mas isso verdadeiramente não importa para o espectador. Vamos ao que interessa:

Em “Frank” o som vem antes da imagem. As vozes em off inauguram uma série de pensamentos de Jon, um aspirante a músico que está tentando compor passeando no meio da rua, enquanto se inspira pelas imagens mais banais possíveis em seu trottoir vagabundo. Jon (Domnhall Gleeson) é mesmo um tramp, que tem seu dia de sorte ao testemunhar a tentativa de suicídio em águas geladas do tecladista da banda de música mambembe que vai tocar em sua cidade litorânea. É a banda de Frank (Michael Fassbender), cujo nome nem os integrantes sabem pronunciar. Jon dispara ao outro músico, Don, que ele é tecladista e que poderia substituir o potencial e patético suicida. Tecladista é modo de dizer. Distinguir um G na pauta é pouco mais do que Jon sabe, mas ele não perde a chance de juntar-se à trupe.

Fassbender está se revelando um ator inteligente, que sabe escolher papeis bem díspares entre si: um sexomaníaco em “Shame”, um robô em “Prometheus” (vem aí o Prometheus 2), um carrasco em “12 Anos de Escravidão”. Neste filme, ele é o band leader, um tanto gênio, um tanto débil mental, que passa a maior parte das cenas com uma enorme cabeça de Playmobil a lhe impedir de se expressar com a face. Eis o desafio. Eu quase vi o seu sorriso por debaixo do papel-machê… (Well, cinema é também imaginação, ou não?) E além de tudo, Fassbender canta.

O fato é que “Frank”, mesmo jogando com clichês como o de músico incompreendido e jogado às traças, pulsa de modo bem-humorado umas verdades da vida, umas necessidades de usar máscaras para não sair do tom que nos impõem os outros diariamente. Também jocosamente conta do fenômeno de se popularizar por meios como o youtube e o tweeter, sem ter nunca tido a chance de aparecer na “Quem?” ou no “Faustão”.

Brincando, brincando, “Frank” toca em temas que são sucesso certo, como a necessidade dos adolescentes de pertencerem a um grupo e de serem aceitos. E a superação dessa dificuldade (ou não) que será determinante para a vida adulta.

No entanto, é leve quando se vê tamanha desolação e impotência, como a questão da saúde mental, para a qual sistema algum encontrou tratamento eficaz, de um modo cômico e quase ingênuo. O absurdo não é o cabeção. O non-sense está na cara, na frente do seu nariz, e a gente finge que não vê.

 

Leia também: Sundance em Londres – Memphis