Sundance em Londres: “Memphis”

A 3ª. edição do Sundance London está para começar, nesta sexta (25/4/2014). Mais uma vez trata-se de uma míni-edição do que acontece em território American Indie, com três dias de programação de filmes, shows, conversas e workshops, finalizando no domingo (27/4). Desta vez, a atração é “Frank”, filme em que o queridinho Michael Fassbender atua com uma cabeça de Playmobil gigante. Deve ter lá o seu quê de humor negro inglês, para ter sido selecionado para a edição londrina. Estou curiosa, confesso. E entre os músicos, haverá um debate com o líder da banda Pulp, Jarnis Cocker.

Na primeira sessão programada para a imprensa, vi “Memphis”, um musical de blues em que o bluesman Willis (Willis Earl Beal) está parado, sem criatividade nem inspiração para prosseguir. Será por isso que não se ouve um blues por inteiro no filme?, me pergunto.

De todo modo, entre os takes de gospels na igreja batista e a espera paciente de sua namorada por uma explosão de criatividade, “Memphis”, do diretor Tim Sutton, apresenta uma América negra lutando pela sobrevivência. Ou melhor, no marasmo entre uma tempestade sopra-tropical e outra, para brincar com os paralelos geográficos.

O que falta em “Memphis”, no entanto, é que no vazio sempre se encontra Deus, o todo, o Tao, e o que aqui se apercebe é que a estrada vai para lugar nenhum. É um Sul dos Estados Unidos que deixou de brilhar, é um opaco azul de armazém de latão, é uma melodia que ainda não se elaborou. A sensação de enfado não advém das tentativas exaustivas de se adaptar ao sistema em vão, como um grunge Cobain a quem ninguém ouve, mas antes das não tentativas de indolência permissiva de uma câmera que vagueia pela vegetação que cresce inadvertidamente à frente dos casarões de madeira. É uma câmera que não tem história alguma para contar. E cinema é, simplesmente, uma boa história contada.

Leia também: Sundance em Londres – Frank

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Maysa Monção
Maysa Monção é uma crítica de filme e esperta em teatro. Ela deu aulas de literatura e análise de filmes na América Latina e na Europa. Foi pessoalmente convidada para o BFI London Film Festival e a Festa Internazionale di Cinema di Roma, entre outros festivais, para escrever críticas sobre novas produções. Exemplos de artistas a quem entrevistou são Peter Greenaway, Dustin Hoffman, Roman Coppola, Jeff Nichols, Kleber Mendonça Filho, Steve MacQueen, Sam Mendes, Tim Burton, Tom Hanks, Thomas Vinterberg, Rolling Stones, Stone Roses, Judi Dench, Sofia Coppola e mais. Também trabalhou no teatro com Antunes Filho e Gerald Thomas.