Ao se aproximar da mesa de café-da-manhã no hotel Langham, a diretora Marjane Satrapi me escolhe entre os colegas e me diz: “Ah! Tenho certeza de que nos vimos antes”. Oi? Acho que não. A única relação distante que eu tenho com Marjane foi ter revisado a edição em português de “Persépolis”, livrinho adaptado por ela para as telas em 2007. Não obstante, a conversa não trava, antes flui, porque é nítido o seu prazer de ter sido escolhida para o Sundance de Londres, com este novo longa, “The Voices”.

Jerry Hickfang (Ryan Reynolds) é um empacotador aparentemente feliz na pacata cidade de Milton, que resolve convidar a estonteante colega de trabalho para jantar num chinês regado a karaokê. Semelhantemente ao personagem de De Niro, em “Taxi driver”, ao levar Cybil Shepherd para um cine pornô, Jerry vai logo se revelar um psicopata, e as vozes do título são as que ele ouve a todo instante, clamando por ação ou ponderação. No caso, a ação diabólica é a voz de um gato; e a ponderação angelical é a voz de um cão, seus bichos de estimação. Marjane diz logo: “Eu me apaixonei pelo gato, porque o cão é um republicano chaaaato.” O gato é quem pede por “mais sangue! Mais sangue!”, seguido à risca no primeiro crime de Jerry. Mas, a seguir, como ele não é uma versão engraçadinha de Fred Krueger, os outros crimes são apenas sugeridos.

“Eu passei a conhecer Ryan e foi ele que teve a ideia de dublar as vozes dos bichos. Ele escolheu uma com sotaque escocês. É maravilhoso quando o ator vai além do que você está esperando e te surpreende em cena”, esclarece Marjane.

Pergunto como ela escolhe os filmes que quer fazer. “Sou muito otimista, mas eu vou morrer. Sou uma fumante contumaz. Então, eu tenho que tentar fazer tudo aquilo que despertar a minha atenção e curiosidade.” E a de seu agente também, penso. Um psicopata maníaco por ordem e padrões será sempre um ponto de partida interessante. O caso será então acertar no tom, no ritmo, e não exagerar. Ainda estou pensando sobre isso. Precisaria rever em alguns meses para concluir com mais nitidez.

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De qualquer modo, para os diretores do Sundance, John Cooper e Trevor Groth, “The Voices” é um filme Indie representativo do caráter independente do festival que de algum modo seria apreciado pelo público londrino. Indaguei a Trevor, que é responsável pela programação do festival, como é a seleção para a edição do Meridiano de Greenwich. “Temos sorte por contarmos com um material tão vasto todo ano. Primeiro, gente pensou mesmo o que poderia funcionar aqui [Londres], mas logo a gente sacou que quase tudo pode dar certo, porque a gente vê que as pessoas têm fome de algo novo.” E claro agora também o interesse dos cineastas que submetem seu filme à edição de Utah é abrir uma porta para a Europa, muito embora essa portinha ainda seja muito estreita, se comparada aos tradicionais festivais de Berlim, Veneza e Cannes. Sundance-Londres trouxe apenas 40 títulos este ano.

 Esperemos que cresça. Há planos já de reproduzir na Europa os laboratórios de criação para curtas.

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