Tragédia como munição política

Durante anos Finsbury Park era a minha estação de metrô para chegar aos estúdios da TV Record, na época em que a emissora produzia conteúdo em Londres e chegou a ter uma dezena de programas locais dos mais variados temas: viagens, negócios, gastronomia, notícias, cinema, esportes e por aí vai.

Na mesma rua movimentada da sede na TV brasileira no Reino Unido, a Seven Sisters Road, há supermercados, bares, restaurantes, lojas oferecendo vestidos de noiva já prontos, uma filial da Igreja Universal do Reino de Deus, sapatarias, barbeiros, uma franquia de produtos do Arsenal vendendo camisetas e bolas oficiais do time e até uma mesquita.

Durante boa parte do mês de junho, mesquitas como esta tem um movimento noturno um pouco maior. É durante este período que acontece o Ramadã, mês sagrado para os muçulmanos, e parte disso inclui jejuar do alvorecer até o anoitecer. Na madrugada desta segunda-feira (19) uma pessoa morreu e 10 ficaram feridas após uma van atropelar fiéis próximo a mesquita.

Como era de se esperar, poucas horas após o incidente, mesmo com as investigações ainda mal terem iniciado, o prefeito de Londres, Sadiq Khan, já usou o termo “terrível ataque terrorista” para se referir ao que aconteceu em Finsbury Park e que o atropelamento em frente a mesquita foi um ataque nos valores de tolerância, liberdade e respeito.

A primeira-ministra britânica Theresa May também anunciou que os atropelamentos estão sendo tratados como “potencial ataque terrorista”, provavelmente porque virou moda extremistas usarem carros para atropelar multidões como o que aconteceu em Paris, em 2016, e no centro de Londres, em março deste ano, quando diversas pessoas foram fatalmente atropeladas em Westminster.

O público, os políticos e a mídia irão encontrar diversas formas de ‘justificar’ os atropelamentos de Fisnbury Park. Alguns irão por a culpa no governo de direita, que defende que deve existir mais controle na imigração desenfreada do país; outros irão culpar a política de ‘portas abertas’ da esquerda, que acha que todos devem ser bem vindos. Sadiq Khan, que é muçulmano, chegou a dizer no ano passado que ataques terroristas são “parte integrante’ de viver em uma grande cidade”.  

E vai ter gente culpando passeatas, religião ou o apocalipse. Sempre tem.

Mas este não é o ponto.

O ponto é que, mais uma vez, uma tragédia irá servir como munição para políticos fazerem campanha e projetarem suas imagens as custas da desgraça dos outros.

Não é algo exclusivo do Reino Unido, claro. Em todo o mundo pessoas eleitas pelo povo pedem ajuda para combater a fome, a seca e epidemias – geralmente colocando a culpa no governo vigente ou no capitalismo – e fazendo questão de usar  qualquer ocasião (enchentes, queimadas, tiroteios, acidentes) para dar uma turbinada na imagem de político-estendendo-a-mão-para-ajudar-os-atingidos-ou-menos-favorecidos.

No caso da mesquita de Finsbury Park, nos próximos dias o difícil vai ser separar a políticagem desta tragégia – e de outras que tem acontecido com bastante frequência na terra de Elizabeth II.

Quando o edifício Grenfell pegou fogo na segunda-feira passada, em Londres, resultando em mais de 60 mortos e dezenas de famílias sem um teto após seus apartamentos terem evaporado em chamas, políticos de partidos diferentes correram para o local e para as mídias sociais. Eufóricos. ‘Transtornados’.

Mas não necessariamente para ajudar.

A corrida, na verdade, era para ver quem conseguia chegar primeiro na frente das câmeras de TV para dar entrevista culpando o outro partido ou a segregação social da capital.  O velho pingue-pongue entre ricos e pobres. Esquerda e direita.

No fim das contas, é na hora do sufoco que se consegue ver como cidadãos e políticos reagem de forma diferente diante da mesma tragédia.

Centenas de pessoas se ofereceram pessoalmente para ser voluntários em centros sociais, igrejas e mesquitas ao redor da área onde o prédio é localizado, no norte de Kensington, fazendo trabalhos essenciais como receber e guardar doações chegando dos quatro cantos do país.

A cantora Lily Allen ofereceu chá e biscoitos.

O empresário musical Simon Cowell recrutou amigos cantores para lançar uma música esta semana e cuja venda será revertida para as vítimas do incêndio.

A Rainha foi visitar os atingidos e prestar a sua solidariedade; a primeira ministra, May, demorou quase uma semana para enfrentar a população.

E Jeremyn Corbyn, líder do partido trabalhista, sugeriu que fossem tomadas as casas extras de pessoas ricas do bairro para alojar os desabrigados.

Ele não ofereceu a dele. Nem biscoitos. Nem chá. Nem música. Ele ofereceu o que é dos outros – porque fazer caridade – e política – com recursos alheios deve ser bem mais interessante para o bolso.

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*Márcio Delgado é Jornalista, Produtor de Conteúdo e Consultor em Londres, onde mora há mais de 10 anos.

Foto: Reprodução Google